Sobre a revolução cultural necessária I

Sobre a revolução cultural necessária I

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Às esquerdas contemporâneas, no Brasil e em outros cantos do mundo, está posto o desafio de redefinir um novo marco de valores num quadro de conflito social que se assemelha a uma guerra de todos contra todos.

Não é um delírio imaginar que o governo de liquidação nacional liderado pela extrema-direita ressuscite a possibilidade histórica de uma esquerda revolucionária no Brasil do século XXI.

Revolucionária no sentido de formular um programa capaz de subverter a lógica destrutiva do capitalismo financeiro. Essa que, impulsionada pelas tecnologias digitais põe em cheque a capacidade da imensa maioria dos trabalhadores de reproduzir diariamente as condições indispensáveis à sua sobrevivência, para se apresentar na manhã seguinte, disposta a cumprir uma nova jornada em qualquer ocupação que lhe ofereçam. Uma lógica excludente e destrutiva que ameaça a própria sobrevivência ecológica do planeta.

Ainda assim, não será suficiente. Tão importante quanto formular um programa que, no seu conteúdo subverta essa lógica suicida, será expressá-lo de forma inteligível e capaz de comover e mobilizar a multidão dos deserdados colhidos pela miragem do “Eu sou o empreendedor de mim mesmo, eu sou meu próprio patrão...” Essa é a circunstância histórica que definirá os contornos do projeto de transformação social, econômica, política e cultural que hoje desafia as esquerdas brasileiras, enfeixando nas mãos dos novos atores sociais, ao mesmo tempo, sua herança de lutas e seu potencial para explodir a velha ordem oligárquica.  

Se é verdade que “o passado pesa sobre o cérebro dos vivos...” é imperativo um olhar desapaixonado sobre o que foi alcançado na história mais remota e também na mais recente, pelas lutas populares no país. Será útil refletir friamente de um ponto de vista capaz de examinar com objetividade os enfrentamentos de classe na nossa história, no último século. As esquerdas reformistas no Brasil puderam incidir mais profundamente sobre a vida concreta das classes trabalhadoras, melhorando-as, do que as esquerdas revolucionárias, por uma razão bastante simples: no país herdeiro da cultura escravocrata e do apartheid social, do pelourinho e da tortura, estas foram fisicamente liquidadas pelo exílio, pela prisão, pela tortura e pelo assassinato. E os revolucionários consequentes foram aqueles sobreviventes que melhor entenderam o ciclo histórico que vivíamos como um ciclo de reformas e não de revolução...

Construíram uma estratégia institucional para chegar ao governo e estabeleceram as alianças de classe que julgaram necessárias para alcançar esse objetivo. E o alcançaram. Realizaram um governo de reformas significativas, capazes de incluir milhões de pessoas no orçamento público e constituir um vasto mercado de consumo popular, oferecer ainda que de forma limitada, serviços de educação, saúde, segurança, transporte, habitação etc. sem, contudo, tocar nos fundamentos de sustentação dessa geringonça social que revela uma invejável capacidade de sobrevivência, há cinco séculos: o modelo que, ao longo da história, articula política, econômica e culturalmente a dualidade Casa Grande & Senzala e suas metamorfoses.

Essa experiência histórica de reformas conduzida pelas esquerdas brasileiras, porém, não se deu conta da colossal hegemonia cultural que as oligarquias herdeiras da Casa Grande exercem sobre uma sociedade submetida secularmente a um criminoso déficit informacional e cultural: “Não construímos, porém, os instrumentos necessários, independentes, para a luta contra-hegemônica, no campo dos valores, do imaginário social, dos projetos de sociedade, de uma nova Cultura Política. Não formulamos nem disseminamos adequadamente o discurso da Nova Ordem. Da ordem democrática e socialista que desejamos para o Brasil”. (“Política cultural e gestão democrática no Brasil”, Rubim, Albino (Org.) Editora Fundação Perseu Abramo, pág. 164, S. Paulo, 2016).

Bem feitas as contas, alguns condutores do projeto reformista sucumbiram à sedução do exercício do poder, ainda que limitado e, no momento propício, à mão implacável da plutocracia que, quando acumulou força suficiente, afastou-se da disputa democrática, formal, em torno de formas e métodos de gerir o processo de desenvolvimento, desferiu o golpe contra a Constituição de 1988 e depôs a Presidente Dilma Rousseff. Em síntese, para os reformistas, sua vitória foi, ao mesmo tempo, sua ruína...

A violência e a amplitude da ofensiva estratégica contra os direitos dos trabalhadores que hoje nos alcança se expressa claramente: na lei do teto de gastos, que excluiu os pobres do orçamento público; na reforma trabalhista regressiva; na destruição da previdência social; na interrupção da política de valorização do poder de compra do salário mínimo; na política de terra arrasada com relação a qualquer iniciativa do Estado para atender às necessidades básicas dos mais pobres nas áreas de educação, saúde, transporte e direito à moradia. Aquele conjunto de ações que até ontem, nos governos do Partido dos Trabalhadores, denominávamos de Políticas Públicas.

Para alcançar seu objetivo totalizante de disputar cada espaço simbólico de poder, a radicalidade da ofensiva da extrema-direita se expressa também na política de segurança pública concebida como o exercício da violência organizada do Estado contra os excluídos, os pobres, os negros, os marginalizados, os segmentos LGBTs; no ataque contra as universidades públicas, os centros de ensino e pesquisa e a indústria pesada de construção civil com o objetivo deliberado e proclamado de destruir a produção científica, cultural e a capacidade produtiva e gerencial autônoma do país; na política de liquidação dos ativos ambientais da Amazônia e dos Cerrados, indispensáveis ao desenvolvimento do Brasil e à sobrevivência do planeta; em suma, na selvageria do capitalismo do século XIX flagelando com os instrumentos disponíveis no século XXI, um país com mais de 200 milhões de habitantes e 8,5 milhões de quilômetros quadrados, para devolvê-lo à condição de neocolônia fornecedora de commodities.

Essa calamidade está ancorada na renúncia humilhante a um projeto de desenvolvimento autônomo assentado sobre a legítima aspiração do povo brasileiro à soberania nacional dessa que já foi, até pouco tempo, a oitava economia do mundo; no estímulo às aspirações mal disfarçadas dos empresários da fé, de instituir no país uma teocracia assentada sobre a extorsão, o obscurantismo, a censura e o ódio. Em uma frase, na instalação por meio de um processo fraudulento, de um governo criminoso contra o povo e a nação.

Toda essa inacreditável calamidade que se abateu sobre a sociedade brasileira demanda das esquerdas a reelaboração do seu projeto socialista, que saiba recolher as heranças libertárias de quase dois séculos de lutas dos trabalhadores em todo o mundo, mas, ao mesmo tempo, encare com objetividade, inteligência e criatividade o impacto da revolução 4.0 sobre as relações de trabalho e reinterprete seus significados na vida concreta dos assalariados precarizados e no imaginário que lhes corresponde.  

Não se pode subestimar nem dissociar – sem grave prejuízo para compreender – a emergência das alternativas políticas de extrema-direita em diferentes regiões do mundo, do quadro da dissolução das relações de trabalho codificadas para atender ao modelo produtivo anterior assentado sobre grandes plantas industriais que caracterizou o capitalismo pelo menos até o colapso da União Soviética, em 1989.  

A partir daí, consolidada a hegemonia do capital financeiro sobre as demais áreas e interesses do sistema e a aceleração do processo de globalização das trocas comerciais, a automação e a revolução tecnológica nas comunicações redesenharam os métodos de exploração da força de trabalho e pulverizaram os instrumentos de lutas dos trabalhadores para reduzi-los à ineficácia, como operou Tatcher com os sindicatos do Reino Unido.

Nos últimos anos, foi liquidada implacavelmente a noção de jornada de trabalho que organizou a pauta do movimento operário desde meados do século XIX e substituída pela “disponibilidade em tempo integral” da mão-de-obra do executivo ao motoqueiro do “Uber eats”. Aqui se localiza um dos fundamentos da destruição, não apenas dos direitos, mas da destruição dos instrumentos sociais criados pelos trabalhadores para defender os direitos conquistados e conquistar novos. Às esquerdas contemporâneas, no Brasil e em outros cantos do mundo está posto o desafio de redefinir um novo marco de valores num quadro de conflito social que se assemelha uma guerra de todos contra todos. Desejo abordar num próximo texto os desdobramentos desse pesadelo no plano da resistência cultural no Brasil.

 

Por Pedro Tierra